Ciência e consumo: dois tempos, uma encruzilhada

17
Compartilhe a Verdade!

Compartilhe a Verdade:


 

 

Notável avanço técnico-científico da modernidade não democratizou o conhecimento. Ao ocultar seus meandros, e se render aos lucros, prática científica alienou-se da vida comum, gerando negacionismos e mitificações, como a de “vacinas milagrosas”

 

Talvez, nem no auge da propaganda Iluminista, se tenha falado tanto em Ciência, quanto neste momento de nossa história recente. Seja porque nunca se precisou tão desesperadamente de um triunfo científico em tão curto tempo, seja porque se observa uma reconfiguração do caráter político do fazer científico, particularmente no lugar em que a ciência consegue penetrar com maior dificuldade: o senso comum.

De fato, os desafios, que hoje a ciência enfrenta, não são constituídos apenas por elementos de nosso dramático momento, porém têm seu ponto de germinação em uma questão que a Modernidade fingiu não ver, ou vendo, não quis enfrentar frontalmente, pois já desconfiava de seus limites e contradições. Conforme vimos em nossa primeira reflexão pandêmica, a articulação ciência-técnica foi a principal garantia do discurso moderno do progresso.

Já não se tratava apenas de ciência como modo de saber– isto é, saber rigoroso capaz de alcançar conhecimento verdadeiro – mas também da técnica como modo de fazer – saber dirigido para a produção – uma vez que os conhecimentos deveriam ser úteis, ou seja, deveriam não apenas se satisfazer na obtenção da verdade, porém produzir bens e objetos capazes de satisfazer as necessidades humanas e melhorar nossa existência. Como no paradigma da Guerra, a Natureza tornar-se nosso inimigo, quanto mais objetos artificiais forem criados, melhor nosso sucesso nesta luta, uma vez que essas criações ingenuamente nos afastariam da natureza, nos dando a falsa impressão que não dependeríamos mais dela.

Desse modo, os limites seriam apenas momentâneos, o tempo só demonstraria nosso avanço até a chegada de nossa autonomia final. É, por isso, que desde então não conseguimos mais pensar o futuro sem a presença da Ciência, é como se só houvesse futuro, se garantíssemos ininterrupto progresso técnico-científico. Mesmo onde o futuro enseja a emancipação humana, ou onde resulte em plena perda e negatividade. Por isso, se tirarmos a ciência das distopias, elas deixam de ser distopias. Qual é, contudo, o sentido mais profundo dessa aderência entre fazer científico e futuro?

Ora, as ciências retiram seus capitais sociais justamente da capacidade de previsibilidade, que para o senso comum aparece como algo absolutamente certo, não como prognóstico ou possibilidade. Daí a ilusória expressão: “ciências exatas”. Esta exatidão, de fato, não corresponde a nenhuma realidade, pois todo ato de conhecimento é formado por uma multiplicidade de determinações que um único saber não pode esgotar completamente: saber certo não é o mesmo que saber exato. Mistificação, paradoxalmente criada no seio da razão moderna, como se a ciência não se assentasse quase que completamente na indução e no modelo tentativa-erro; e, que seus ganhos seguem um ritmo mais lento do que a imagem da aceleração que o mundo globalizado nos oferece.

Esta aceleração que é das coisas, mas não do conhecimento, confundindo-se com a previsibilidade, que muitas vezes nada mais é que uma faceta do domínio, mostra-se agora por meio dos inúmeros prognósticos que nos são oferecidos sobre um almejado pós-pandemia: a pandemia nem está perto do fim, nem sequer somos capazes de compreendê-la em sua inteireza, sequer abarcamos bem as suas causas e a enxurrada dos seus efeitos sociais, mas já nos dispomos a pensar sobre o “pós”. É como se magicamente, com a varinha de condão do tempo, este pós-pandemia fosse tirado da cartola e nos fosse ofertado com prêmio de nossa resiliência, por isso, deveríamos estar prontos para o receber.

Newton não intuiu as leis da física depois que a maçã lhe caiu na cabeça, como que por afortunado destino, conforme supõe a lendária narrativa que na escola nos é ensinada no esforço de valorização da ciência. Não é estranho que nos ensinem a valorizar um dos meios de obtenção da verdade, através de lendas? Com efeito, as coisas não são tão simples como parecem. Ao contrário, as proposições do físico inglês demandaram tempo, trabalho e a vida não apenas dele, mas de outros cientistas que o antecederam. Se oculta, desse modo, que o fazer científico não depende apenas do esforço individual do cientista, mas que é, como toda realização social, um fazer coletivo perpassado por múltiplos elementos. Todo fazer científico, mesmo quando feito em lugares ou fins privados, é um bem público, pois nunca pode se dá sem contribuição coletiva. Se o conhecimento que nos trouxe até aqui deve pertencer a todos, como traço do avanço civilizatório, por que seus frutos também não?

Nos esquecemos disso, pois o fazer científico se deu sob o signo da ocultação, sustentando numa crença pífia e medíocre: pensar que a exposição dos erros rebaixaria a ciência. Dessa forma, para poder garantir e aumentar o capital social do conhecimento científico deve-se construir uma imagem triunfante, plena de acertos.

O melhor exemplo disso, ou o mais caricato deles, é a presença diária do homem/mulher do tempo e dos economistas nos telejornais. Assim como a meteorologia é capaz de prever se faz chuva ou sol no dia seguinte, o economista é capaz de predizer como irá se comportar a bolsa e qual o melhor investimento a ser feito. No caso destes saberes, temos a retórica do acerto científico dada em seu caráter mais bruto: a previsibilidade meteorológica nos dá a falsa impressão que o sistema clima é um sistema fechado cujas variantes estão sobre completo controle de quem as analisa; já os vaticínios econômicos naturalizam como fato absoluto e indiscutível algo que, sendo fruto do arbítrio humano, está sempre fadado à imprevisibilidade.

Mirando apenas no resultado, se ocultam não só os erros e o que dispensável foi ficando no decorrer do processo, mas também os meios pelos quais se chegou a um resultado confiável. O homem comum não domina e sabe cada vez menos sobre os meios que levam à obtenção de objetos técnicos-científicos, pois todo o foco está na produção de coisas novas. Desse modo, ainda que próxima, pois os efeitos do conhecimento científico estão não apenas em nossas casas ou objetos que dispomos, mas em nossos próprios corpos, a ciência se torna algo distante; e, por isso, contradizendo-se o discurso moderno. Mitificada, como se tivesse poderes mágicos, a ciência perde a vitalidade de seu fazer que não está apenas nos fins, mas na boa conjunção com os meios. Não é por suas finalidades intrínsecas, ou só por aquilo que produz, que as ciências podem desfazer a superstição e a ignorância, porém pelo bom uso dos meios.

Por isso, o que acontece se alguém sai sem guarda-chuva e volta molhado, depois de ouvir a previsão do tempo; ou perde dinheiro, apesar dos conselhos do economista? Uma óbvia perda de confiança. Imaginem, então, que no auge do avanço técnico-científico, quando já se pensava no pós-orgânico e a realidade parecia ter sido suplantada pelo virtual, surgisse algo que apontasse os limites de tudo isso? Que nos convencesse que apesar dos avanços, nossa condição natural é irremediável, não podendo ser ocultada, nem apagada? Está então formado o quadro da pandemia e suas consequências para o fazer científico.

A perda de confiança na ciência, como já sabemos, tem seu aspecto mais brutal no ‘anticientificismo’, como se o fazer científico fosse somente mais uma mera opinião entre outras. Parte disso ocorre justamente pela ocultação dos meios, a falta de boa publicitação das práticas e por achar que se adequar aos simplismos da comunicação midiática é o suficiente. A retórica do acerto é boa nos tempos de calmaria, não nos períodos de crise. Ora, é pelos meios utilizados que a ciência deixa de ser mera opinião, mas quando se apresenta triunfante e absoluta, não dando o que havia prometido, ela se torna vazia. Além de vazia, pode se tornar um discurso mudo aos ouvidos de muitos, pois como ocultou os meios, fechando-se em sua própria linguagem, mostrar-se ineficiente para convencer quando não tem nenhum produto para oferecer.

Lembro, por exemplo, das falas públicas de muitos cientistas se esmerando em afirmar que as pessoas comuns não entenderiam o que seria o tal “platô” da curva. Mas não ocorria de ninguém se perguntar sobre as causas dessa incompreensão. Tal se dá justamente pela ocultação dos meios e pela distância entre o fazer científico e as práticas da vida comum. Simplesmente usar cotidianamente os produtos desta prática, ao invés de se esclarecer, aliena. E isso também para os cientistas, que cada vez mais atolados nos pântanos da hiperespecialização vão se tornando incapazes de compreender os paradoxos de suas práticas. Incapaz de falar ao homem comum, justamente porque se alienou dele, o cientista resultante do malogrado projeto moderno deixar-se embalar pelo canto da sereia que confunde a autonomia do fazer científico com seu pretenso isolamento do mundo. A realidade é bem mais complexa que a paz dos laboratórios parece supor.

Ocorre que neste momento, na encruzilhada histórica em que estamos, a ciência é cada vez mais instada a oferecer um produto: queremos a vacina a todo custo, ainda que nos sejam ocultados os meios para este fim. As notícias que todos os dias nos chegam sobre as diversas vacinas que estão sendo testadas, em vez de esclarecerem os meandros da prática científica, os ocultam, pois não conseguimos mais diferenciarmos o tempo da ciência e o tempo do consumo, expressão mais loquaz de que o saber científica perdeu seu caráter formativo.

 

Luz pra nós!

 

Compartilhe a Verdade:


5 1 vote
Article Rating

Compartilhe a Verdade!

Xablau

Entre com:




Subscribe
Notify of
17 Comentários
Most Voted
Newest Oldest
Inline Feedbacks
View all comments
Michelly
Admin
02/08/2020 7:14 pm

Luz pra nós!

Jonathan Muniz
02/08/2020 2:04 pm

Luz p’ra nós!

Macauley Shivaya ''Mago''
02/08/2020 3:20 pm

Luz p’ra nós!

Ana Paula
02/08/2020 3:57 pm

Luz p’ra nós

Amanda Gonzalez
02/08/2020 4:55 pm

Luz pr’a nós

Lucas Schwarzbold
Editor
02/08/2020 5:35 pm

Luz pra nós!

02/08/2020 7:15 pm

Luz p’ra Nós 🍎

Gustavo Borba
02/08/2020 7:54 pm

Um cientista com uma “hiperespecialização”, errar é considerado um desastre para o ego. Luz p’ra nós!

Márcio Henrique
02/08/2020 8:53 pm

Luz pra nós!

Luiz Cláudio
02/08/2020 10:24 pm

Luz p’ra nós!

Everton
03/08/2020 9:07 am

Luz p’ra nós!

Eduardo Donald
03/08/2020 9:22 am

up!

Ronaldo Vieira
03/08/2020 6:28 pm

Luz pra nós!

Leonardo Moreira
04/08/2020 11:57 am

Luz P’ra Nós!

Leonardo Moreira
04/08/2020 12:01 pm

Eu vejo essa dicotomia, até falsa, de ciência vs misticismo como atrasada.
Ela se refere aos dois lados do Cérebro.O lógico esquerdo e o Direito intuitivo.Mas as duas partes são perspectivas que deveriam se unir pelo progresso e não lutarem entre si.A sociedade moderna, em geral, valoriza mais uma característica em detrimento da outra.Acredito que o certo seria o equilíbrio.Embora cada um de nós permanecerá predominante numa face, isso deveria facilitar nossa união.Luz P’ra Nós

Mateus Corrêa
04/08/2020 7:02 pm

Boa mano! Post interessante.

Luz pra nós!

Camila Ribeiro
07/08/2020 10:38 am

Luz pra nós!

Next Post

Veja estes grafites 3D que parecem pular da parede de tão realistas

dom ago 2 , 2020
Compartilhe a Verdade!Compartilhe a Verdade:   O artista @Scaf_Oner trabalha transformando e agregando valor a lugares abandonados. “Adoro pintar em todos esses lugares abandonados. Acima de tudo, gosto de casas, mansões, castelos e fábricas abandonados.”  – diz ele em seu instagram A marca registrada do artista de rua francês é […]

Siga-nos os bons

Ative o Sininho

Clique Aqui

Quem está online

Amanda Gonzalez
Jeferson Vinicio
Arthur Luighe
Lin de Oliveira
Miguel Freitas Figueredo
Renan Messias

Você:

Teus Téritos bônus

0 Téritos
error

Seja caminho para a Verdade

17
0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x
Pular para a barra de ferramentas